Nos últimos anos, um termo tem se tornado cada vez mais comum no vocabulário da sociedade: “geração sanduíche”. Ele descreve uma realidade que afeta muitas mulheres, especialmente aquelas na faixa etária de 40 a 50 anos, que vivem a difícil situação de se dividirem entre o cuidado dos filhos e dos pais idosos. Esta sobrecarga de tarefas, em que a mulher assume responsabilidades com os filhos pequenos ou adolescentes e também com os pais que envelhecem, tem gerado um desgaste emocional, físico e psicológico crescente.
A questão da geração sanduíche vai além da simples divisão de tarefas domésticas. Ela é um reflexo das mudanças demográficas que têm ocorrido no Brasil e no mundo. O aumento da expectativa de vida da população e a redução da taxa de fecundidade criaram um cenário onde muitas mulheres precisam conciliar a responsabilidade de cuidar de seus filhos e seus pais, muitas vezes ao mesmo tempo. Esse fenômeno está diretamente ligado à falta de políticas públicas de apoio e à escassa divisão de tarefas no ambiente doméstico, que, historicamente, recai sobre os ombros das mulheres.
Se você se sente sobrecarregada, sem tempo para cuidar de si mesma e com medo de não dar conta de todas as responsabilidades, saiba que você não está sozinha. A sobrecarga da geração sanduíche é uma realidade para muitas mulheres, e, ao reconhecer isso, podemos começar a encontrar maneiras de lidar com essa pressão de forma mais saudável.
A Realidade da Geração Sanduíche no Brasil
A expressão “geração sanduíche” surgiu nos anos 1980 e foi inicialmente usada para descrever mulheres que estavam vivendo uma situação difícil de conciliar a educação de filhos pequenos e a necessidade de cuidar de pais idosos. Mas a realidade se expandiu, e essa sobrecarga afetou não apenas mães de crianças pequenas, mas também mulheres que lidam com filhos adultos que ainda dependem delas para apoio financeiro ou emocional. A quantidade de responsabilidades no dia a dia é tamanha que essas mulheres se sentem esmagadas, como se estivessem literalmente entre um “pão” de responsabilidades familiares e pessoais.
No Brasil, as estatísticas são alarmantes. Um levantamento realizado em 2022 pelo G1, com base no Censo, aponta que 35% dos brasileiros fazem parte da geração sanduíche, sendo que mais da metade desse número (51%) são mulheres. Ou seja, cerca de um terço da população brasileira está vivendo essa sobrecarga, e a maioria é composta por mulheres. A situação é ainda mais complicada quando se observa que a maioria dessas mulheres está também inserida no mercado de trabalho, o que aumenta ainda mais a pressão sobre elas.
A Duração do Trabalho de Cuidado: O Peso Imenso Sobre os Ombros das Mulheres
De acordo com o IBGE, mais de 90% das mulheres com mais de 25 anos no Brasil realizam tarefas domésticas. Em comparação, menos de 80% dos homens assumem as mesmas responsabilidades. Essa disparidade não apenas sobrecarrega as mulheres no dia a dia, mas também contribui para um desequilíbrio significativo quando se trata da divisão de cuidados com filhos e pais. Enquanto muitas mulheres são responsáveis pela manutenção de suas casas, a criação dos filhos e, agora, o cuidado de pais idosos, os homens não dividem igualmente essas responsabilidades, como aponta a economista Luiza Nassif Pires em uma entrevista ao The Intercept Brasil.
A falta de divisão equitativa de tarefas domésticas e de cuidados é uma questão estrutural que remonta à nossa cultura patriarcal. Apesar de muitas mulheres estarem inseridas no mercado de trabalho e serem corresponsáveis pela provisão de renda da família, elas continuam sendo vistas como as principais responsáveis pelo cuidado não remunerado, seja com filhos, pais ou outros familiares. Isso leva a um acúmulo de funções que acaba afetando diretamente a saúde e o bem-estar dessas mulheres.
Como a Sobrecarga Afeta a Saúde Mental e Física
A sobrecarga de responsabilidades tem sérias consequências para a saúde mental e física das mulheres da geração sanduíche. A pressão constante para dar conta de tudo pode levar a níveis elevados de estresse, ansiedade, depressão e até exaustão física. Mulheres que dedicam seu tempo ao cuidado dos outros muitas vezes deixam de lado as próprias necessidades, o que gera um ciclo de autocobrança e culpa, pois se sentem incapazes de atender a todas as demandas sem comprometer sua saúde.
Além disso, a falta de tempo para o autocuidado é um dos maiores desafios. Muitas mulheres da geração sanduíche se veem sem espaço para atividades simples que seriam essenciais para manter seu equilíbrio emocional e físico, como praticar exercícios, fazer terapia, meditar ou até mesmo tirar um tempo para relaxar e se divertir.
O Papel das Políticas Públicas no Apoio à Geração Sanduíche
A responsabilidade pelo cuidado de filhos e pais, especialmente quando se fala da geração sanduíche, recai sobre a família, mas não existem políticas públicas adequadas para apoiar esse trabalho. A economista Luiza Nassif Pires afirma que, embora a responsabilidade seja atribuída às famílias, estas não recebem a capacitação ou o auxílio necessário para fazer frente às demandas de cuidados, principalmente quando as mulheres se encontram sobrecarregadas.
Políticas de apoio, como licença para cuidados de familiares, apoio financeiro para cuidados com idosos e crianças e a criação de espaços públicos que proporcionem apoio psicológico e físico, são fundamentais para que as mulheres não carreguem sozinhas o peso dessa responsabilidade. Até que essas mudanças ocorram, é essencial que as mulheres se apoiem em sua rede de suporte, busquem o equilíbrio e reivindiquem a divisão das tarefas de cuidado com os demais membros da família.
Como Encontrar o Equilíbrio: Dicas de Autocuidado
Encontrar o equilíbrio entre cuidar dos outros e de si mesma é um grande desafio para as mulheres da geração sanduíche. Mas, apesar das dificuldades, existem algumas estratégias que podem ajudar a aliviar a sobrecarga e permitir que as mulheres encontrem espaço para cuidar de si mesmas.
- Defina Prioridades: A primeira etapa para aliviar a sobrecarga é reconhecer que não é possível fazer tudo ao mesmo tempo. Defina o que é mais importante e o que pode ser delegado ou postergado.
- Delegue Tarefas: Se possível, delegue parte das responsabilidades de cuidado para outros membros da família ou contrate ajuda externa, como cuidadores ou auxiliares domésticas.
- Estabeleça Limites: É importante aprender a dizer não. Não há vergonha em pedir ajuda ou recusar responsabilidades adicionais quando o próprio bem-estar está em risco.
- Reserve Momentos para Si: Planeje e reserve momentos de autocuidado. Isso pode ser uma pausa de 10 minutos para respirar, fazer uma atividade que você goste ou até mesmo marcar uma consulta com um profissional de saúde mental.
- Busque Apoio Psicológico: O acompanhamento psicológico pode ser um grande aliado para lidar com a pressão emocional que a geração sanduíche enfrenta. Não tenha medo de pedir ajuda para lidar com o estresse e a ansiedade.
A Cultura de Sedentarismo
Os idosos que nasceram nas décadas de 1940 cresceram em uma época em que os cuidados com a saúde não eram tão enfatizados como são hoje. Muitos deles foram criados em um contexto onde a alimentação saudável, a prática de atividades físicas e o autocuidado não eram considerados prioridades. Isso resultou em um estilo de vida mais sedentário e, muitas vezes, em hábitos alimentares pouco equilibrados, com o consumo excessivo de alimentos processados, frituras e, por vezes, até negligência em relação à ingestão de nutrientes essenciais.
Quando esses idosos chegam à terceira idade, a falta de conscientização sobre a importância de uma alimentação saudável e do exercício físico acaba gerando complicações de saúde, como problemas cardíacos, diabetes, obesidade e hipertensão. Para as mulheres da geração sanduíche, lidar com esses desafios é uma tarefa árdua, já que não se trata apenas de administrar medicações e visitas ao médico, mas também de tentar mudar hábitos profundamente enraizados, muitas vezes sem a colaboração dos próprios idosos.
A resistência a mudanças de hábitos alimentares é comum, e muitos idosos da década de 1940 podem demonstrar resistência a seguir orientações sobre dieta e atividades físicas. Isso gera um ambiente de frustração para as filhas ou cuidadoras, que tentam implementar mudanças, mas enfrentam barreiras culturais e psicológicas. Isso cria uma dinâmica em que o cuidado não é apenas físico, mas também emocional, já que a mulher da geração sanduíche precisa lidar com os desafios de convencê-los a mudar hábitos que nem mesmo estavam na agenda de sua geração.
A Dificuldade de Se Abrir para Novos Conexões
Outro ponto sensível na relação com os idosos das décadas de 1940 é a dificuldade que eles podem ter para se abrir a novas relações, amizades e formas de convivência. Muitas vezes, esses idosos crescem com a crença de que as “relações verdadeiras” são aquelas feitas na juventude, ou em momentos específicos da vida, como quando casaram ou formaram suas famílias. Isso significa que, para muitos deles, a ideia de construir novas amizades ou de buscar companhia social, especialmente à medida que envelhecem, pode ser vista como desnecessária ou até irrelevante.
Esse paradigma geracional de que as relações verdadeiras são limitadas à juventude é, em parte, resultado da maneira como as interações sociais eram moldadas no passado. A sociedade valorizava muito mais o núcleo familiar tradicional, e a ideia de criar novas conexões à medida que envelhecemos não era algo muito explorado. Isso pode ser um obstáculo emocional significativo, pois, à medida que os anos passam, a solidão e o isolamento social podem se tornar questões cada vez mais presentes na vida dos idosos.
Para a mulher da geração sanduíche, lidar com essa mentalidade é um desafio emocional e afetivo. Ela percebe que seu pai ou mãe, por exemplo, têm poucas relações sociais fora do círculo familiar, e isso pode resultar em sentimentos de solidão ou depressão, algo que é ainda mais difícil de gerenciar quando se está lidando com outras demandas de cuidado.
A dificuldade de os idosos se abrirem para novas amizades ou conexões sociais pode gerar um sentimento de impotência, pois a cuidadora percebe que, por mais que tente estimular novas relações, existe uma barreira emocional que não pode ser facilmente superada.
Estratégias para Superar esses Desafios
Entender essas características da geração mais velha pode ajudar as mulheres da geração sanduíche a desenvolverem formas mais eficazes de lidar com os desafios do cuidado. Aqui estão algumas sugestões:
- Enfoque na Empatia e Paciência: É importante que as cuidadoras se aproximem de seus pais idosos com empatia, respeitando a história de vida deles e reconhecendo as dificuldades que enfrentam para mudar hábitos. Criar um ambiente de paciência e compreensão, sem pressionar demais, pode ser fundamental para que os idosos se sintam acolhidos e mais dispostos a aceitar mudanças.
- Envolvimento Gradual em Atividades Físicas e Alimentação Saudável: Ao invés de mudanças radicais na alimentação ou no estilo de vida, é possível começar com pequenas alterações que sejam mais aceitáveis. Caminhadas curtas, atividades simples de alongamento e refeições mais equilibradas podem ser introduzidas de forma gradual, respeitando os limites dos idosos e tentando tornar esses hábitos mais agradáveis.
- Estímulo ao Envolvimento Social: Para aqueles que se fecham para novas relações, é importante tentar incentivar novas formas de socialização, como grupos de idosos, clubes de leitura ou até mesmo atividades simples de vizinhança. O uso de tecnologia, como vídeo chamadas, também pode ser uma forma de combater o isolamento. Ao mostrar os benefícios das novas conexões e relacionamentos, a mulher da geração sanduíche pode ajudar a quebrar a resistência de seus pais ao novo.
- Buscar Apoio Profissional: Em alguns casos, a resistência dos idosos pode ser tão forte que o apoio de profissionais, como terapeutas ou gerontologistas, pode ser essencial. Esses especialistas podem ajudar a lidar com a resistência emocional dos idosos, incentivando-os a buscar novas relações e a adotar um estilo de vida mais saudável.
A Sensibilidade e a Força de Quem Cuida
Cuidar de pais idosos que trazem consigo hábitos de uma geração anterior, com pouca atenção à saúde e com uma visão fechada sobre a possibilidade de novas relações sociais, é um desafio emocional profundo. Para a mulher da geração sanduíche, essa tarefa exige não apenas dedicação e paciência, mas também a coragem de quebrar barreiras culturais e emocionais. A compreensão de que a mudança é um processo gradual e que, muitas vezes, não será fácil, é essencial para lidar com a sobrecarga de responsabilidades que recai sobre seus ombros.
É importante lembrar que, mesmo em meio a tantos desafios, a mulher da geração sanduíche também precisa cuidar de si mesma e se permitir momentos de descanso e autocuidado. A luta por um equilíbrio entre as demandas de cuidar de pais idosos e manter sua própria saúde emocional é constante. Contudo, é possível, aos poucos, construir uma relação mais saudável e equilibrada, respeitando as limitações da geração mais velha e criando novos espaços de afeto, conexão e cuidado.
O Caminho para a Reconciliação
A sobrecarga das mulheres da geração sanduíche é uma realidade que não pode ser ignorada. Embora seja um desafio, é possível encontrar formas de lidar com essa pressão de maneira mais equilibrada. O primeiro passo é reconhecer o peso dessa responsabilidade e buscar estratégias de autocuidado e apoio. No entanto, também é fundamental que a sociedade e as políticas públicas reconheçam e apoiem o trabalho de cuidado, promovendo uma divisão mais justa e equilibrada das tarefas entre homens e mulheres.
Se você, mulher da geração sanduíche, está se sentindo sobrecarregada, saiba que sua dor é válida, e você não está sozinha. O autocuidado é essencial para sua saúde mental e física, e é possível, sim, encontrar momentos para se cuidar, mesmo em meio a tantas responsabilidades.
Lembre-se de que, ao cuidar de si mesma, você está fortalecendo sua capacidade de cuidar de quem mais precisa de você. E, acima de tudo, merecemos uma vida plena, com equilíbrio, carinho e atenção para todas as nossas necessidades.
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